Arquivo de Dezembro, 2010



Clarice Lispector

«Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.»

Clarice Lispector

Clarice Lispector

Começou a trabalhar como professora particular de português. A relação professor/aluno seria um dos temas preferidos e recorrentes em toda a sua obra – desde o primeiro romance. Os passos seguintes são o jornal “A Noite” e o início do livro ‘’Perto do Coração Selvagem’’, segundo ela, um processo cercado pela angústia. O romance persegue-a. As ideias surgem a qualquer hora, em qualquer lugar. Nasce aí uma das características do seu método de escrita, anotar as ideias a qualquer hora, em qualquer pedaço de papel.

Segundo a crítica francesa Hélène Cixous: “Se Kafka fosse mulher. Se Rilke fosse uma brasileira judia nascida na Ucrânia. Se Rimbaud tivesse sido mãe, se tivesse chegado aos cinquenta. (…). É nessa ambiência que Clarice Lispector escreve. Lá, onde respiram as obras mais exigentes, ela avança. Lá, mais à frente, onde o filósofo perde fôlego, ela continua, mais longe ainda, mais longe do que todo o saber”.

Os seus últimos anos de vida são de intensa produção literária. Morre, no Rio, no dia 9 de Dezembro de 1977, um dia antes do seu 57.º aniversário. Relembramos Clarice Lispector, no 90.º aniversário do seu nascimento.

Almeida Garrett

Este Inferno de Amar

«Este inferno de amar – como eu amo! –
Quem mo pôs aqui n’alma… quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida – e que a vida destrói –
Como é que se veio a atear,
Quando – ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez… – foi um sonho –
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar…
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei… dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? – Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei…»

Almeida Garrett

Almeida Garrett

Escritor e dramaturgo romântico, foi o proponente da edificação do Teatro Nacional de D. Maria II e da criação do Conservatório e um inovador da escrita e da composição literária do século XIX. Na conturbada vida política da primeira metade do século, distinguiu-se como jornalista, deputado e ministro.

Na sua actividade de dramaturgo, propõe-se criar um repertório dramático português. Como romancista, é considerado o criador da prosa moderna em Portugal e, na poesia, é dos primeiros a libertar-se dos cânones clássicos e a introduzir em Portugal a nova estética romântica. Quando perfazem 156 anos da sua morte, destacamos Almeida Garrett.

Florbela Espanca

Os versos que te fiz

“Deixe dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Tem dolência de veludo caros,
São como sedas pálidas a arder…
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não te digo ainda…
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei…
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz.”

(Florbela Espanca)

Florbela Espanca

Florbela Espanca

“A obra de Florbela é a expressão poética de um caso humano. Decerto para infelicidade da sua vida terrena, mas glória de seu nome e glória da poesia portuguesa, Florbela viveu a fundo esses estados quer de depressão, quer de exaltação, quer de concentração em si mesma, quer de dispersão em tudo, que na sua poesia atinge tão vibrante expressão. Mulheres com talento vocabular e métrico para talharem um soneto como quem talha um vestido; ou bordarem imagens como quem borda missanga; ou (o que é ainda menos agradável) se dilatarem em ondas de verbalismo como quem se espreguiça por nada ter o que fazer, que dizer – naturalmente as houve, e há, antes e depois da vida de Florbela. (…) Também, decerto, apareceram na nossa poesia autênticas poetisas, antes e depois de Florbela. Nenhuma, porém, até hoje, viveu tão a sério um caso tão excepcional e, ao mesmo tempo, tão significativamente humano. Jorge de Sena dirá: tão expressivamente feminino.” (José Régio)

Com esta citação, que dispensa mais comentários, homenageamos esta poetisa, no 116.º aniversário do seu nascimento, que é também o 80.º da sua trágica morte.

António Alçada Baptista

«Vamos ficar por aqui, a fazer aquilo que podemos e sabemos, certos de que fazemos muito pouco em relação aos sonhos que moram no nosso destino e que talvez façamos muito se tivermos em conta aquilo de que somos feitos.»

(in “O Riso de Deus”)

António Alçada Baptista

António Alçada Baptista

Foi presidente do Instituto Português do Livro. Traduziu Jorge Luis Borges e Jacques Maritain, tendo colaborado em vários periódicos (A Capital e O Semanário, por exemplo), com uma publicação regular de crónicas, algumas das quais já reunidas em obras como O Tempo nas Palavras.

A sua obra literária, repartida entre a ficção e o ensaio de memórias pessoais e colectivas (com destaque para os dois volumes de Peregrinação Interior), funda-se num princípio unificador: o da busca de uma unidade interior que seja a razão para que, na sociedade contemporânea portuguesa, “certas coisas aconteçam sem que eu saiba como nem porquê e sem me darem em troca nada de melhor” (cf. Peregrinação Interior I, p. 23).

Dois anos após a sua morte, recordamos António Alçada Baptista.

Peter Handke

Peter Handke

Peter Handke

É um escritor escritor austríaco, também autor de teatro, romances, poesia, argumentista e realizador de cinema e considerado como um dos maiores dramaturgos da história da literatura em língua alemã.

”Gaspar”, ”A Angústia do Guarda-Redes antes do Penalty”, ”Uma Breve Carta para Um Longo Adeus”, ”A Mulher Canhota”, ”A Hora da Sensação Verdadeira”, ”Para Uma Abordagem da Fadiga” e ”A Tarde de Um Escritor” são algumas das suas obras mais conhecidas, já traduzidas para português. Escreveu ainda o argumento do filme ”As Asas do Desejo”, realizado por Wim Wenders, que mereceu grandes elogios por parte da crítica.

No dia em que celebra o seu 68.º aniversário, destacamos Peter Handke.

Raul Brandão

“Existe uma certa grandeza em repetir todos os dias a mesma coisa. O homem só vive de detalhes e as manias têm uma força enorme: são elas que nos sustentam” (in “Húmus”)

Raul Brandão

Raul Brandão

A sua infância foi marcada pela paisagem física e humana da zona piscatória da Foz do Douro, frequentou o curso superior de Letras, mas acabou por ingressar, um pouco contra vontade, na carreira militar, da qual se reformaria aos 45 anos, e que em muito condicionou toda a sua vida, até mesmo por, em virtude da sua colocação em Guimarães, aí ter conhecido aquela que viria a ser sua mulher. Nas suas próprias palavras, “no tempo em que fui tropa, vivi sempre enrascado”, mas, paralelamente, manteve uma carreira de jornalista e foi publicando uma extensa e multifacetada obra literária, que o tornaria um dos escritores que, a par de Fernando Pessoa, mais influíram na evolução da literatura portuguesa do século XX. Hoje, quando passam 80 anos da sua morte, destacámos este insigne autor, prosador, ficcionista, dramaturgo e pintor.

Rainer Maria Rilke

Dançarina Espanhola

“Como um fósforo a arder antes que cresça
a flama, distendendo em raios brancos
suas línguas de luz, assim começa
e se alastra ao redor, ágil e ardente,
a dança em arco aos trémulos arrancos.

E logo ela é só flama, inteiramente.

Com um olhar põe fogo nos cabelos
e com a arte subtil dos tornozelos
incendeia também os seus vestidos
de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
saltam os braços nus com estalidos.

Então, como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla. Ei-lo ao rés-do-chão, irado,
a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,
pisa-o com seu pequeno pé preciso.”

(Tradução de Augusto de Campos)

Rainer Maria Rilke

Rainer Maria Rilke

Celebramos hoje, ao passarem 135 anos do seu nascimento, um autor de origem austríaca, tido como um dos mais importantes poetas modernos da literatura e língua alemã, pela sua obra inovadora e pelo seu incomparável estilo lírico.

Viveu uma juventude muito dura, em parte pela sua formação militar, que foi forçado a abandonar por motivos de saúde, após o que se dedicou à Poesia, com o apoio determinante de vários mecenas aristocratas.

A sua obra atingiu grande popularidade durante a Primeira Guerra Mundial e foi redescoberta nos anos de 1950, sendo actualmente considerado um clássico da literatura mundial. “O desenvolvimento da sua poesia parte de uma lírica que trabalha com sentimentos, passando pelos ‘poemas-objecto’ de grande virtuosismo, até as exaltações mágicas e as mensagens quase indecifráveis.”

Ann Patchett

Ann Patchett

Ann Patchett

É autora de quatro romances, ”The Patron Saint of Liars”, eleito Livro Notável do Ano pelo The New York Times, “Taft”, que recebeu o Janet Heidinger Kafka Prize, ”The Magician’s Assistant”, pelo qual a autora recebeu uma bolsa Guggenheim e ”Bel Canto”, distinguido com o PEN/Faulkner Award e o inglês Orange Prize, eleito Livro do Ano Book Sense e finalista do National Book Critics Circle Award e já traduzido em trinta línguas.

O seu livro de não-ficção, ”Truth & Beauty”, foi um bestseller do The New York Times e recebeu o Books for a Better Life Award. No dia em que celebra o seu 47.º aniversário, destacamos Ann Patchett.

Woody Allen

“Há dois tipos de pessoas neste mundo: boas e más. O sono das boas é melhor, mas as más parecem gozar muito mais as horas de vigília.”

(Woody Allen)

Woody Allen

Woody Allen

Seria interminável a quantidade de frases de humor mordaz e satírico que se poderiam citar deste autor, que é sobretudo famoso como cineasta. Realizador prolífico e muito premiado, já com 46 obras produzidas, os seus filmes tem sempre fortes traços autobiográficos e falam sobre neuroses comportamentais do dia-a-dia, com uma crítica cáustica e subtil, em longos diálogos analíticos.

Sendo um dos preferidos nas nomeações aos Óscares da Academia de Hollywood (recordista para o melhor guião), sempre a votou a um relativo desprezo, excepto em 2002, quando finalmente compareceu na cerimónia para fazer uma emocionante homenagem à cidade de Nova York, após os atentados de 11 de Setembro.

Além de comediante, director, guionista e actor de cinema, também é músico e toca clarinete semanalmente num bar de Nova York. A sua ligação com a música, principalmente com o Jazz, pode ser constatada em todos os seus filmes, nos quais é responsável também pela escolha da banda sonora.

“É sem dúvida um vulto da realização, um autêntico símbolo da cidade de Nova York que ele representa sempre com muito orgulho. Apesar de ter uma personalidade bastante reservada, conseguiu o sucesso no mundo do cinema. Pode ser bastante excêntrico, mas isso não lhe tira o grande talento na realização, escrita e interpretação. Woody Allen é uma forma cinematográfica quase perfeita.” (in http://portalcinema.blogspot.com/2007/11/biografia-woody-allen.html)

Descreve-se a si próprio da seguinte maneira: “As pessoas enganam-se sempre em duas coisas sobre mim: pensam que sou um intelectual, porque uso óculos, e que sou um artista, porque os meus filmes perdem sempre dinheiro”.

Damos os parabéns a este inigualável artista, no dia em perfaz 75 anos.


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