Gonçalves Dias

Como eu te amo

«Como se ama o silêncio, a luz, o aroma,
O orvalho numa flor, nos céus a estrela,
No largo mar a sombra de uma vela,
Que lá na extrema do horizonte assoma;

Como se ama o clarão da branca lua,
Da noite na mudez os sons da flauta,
As canções saudosíssimas do nauta,
Quando em mole vaivém a nau flutua,

Como se ama das aves o gemido,
Da noite as sombras e do dia as cores,
Um céu com luzes, um jardim com flores,
Um canto quase em lágrimas sumido;

Como se ama o crepúsculo da aurora,
A mansa viração que o bosque ondeia,
O sussurro da fonte que serpeia,
Uma imagem risonha e sedutora;

Como se ama o calor e a luz querida,
A harmonia, o frescor, os sons, os céus,
Silêncio, e cores, e perfume, e vida,
Os pais e a pátria e a virtude e a Deus:

Assim eu te amo, assim; mais do que podem
Dizer-to os lábios meus, — mais do que vale
Cantar a voz do trovador cansada:
O que é belo, o que é justo, santo e grande
Amo em ti. — Por tudo quanto sofro,
Por quanto já sofri, por quanto ainda
Me resta de sofrer, por tudo eu te amo.
O que espero, cobiço, almejo, ou temo
De ti, só de ti pende: oh! nunca saibas
Com quanto amor eu te amo, e de que fonte
Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo!
Esta oculta paixão, que mal suspeitas,
Que não vês, não supões, nem te eu revelo,
Só pode no silêncio achar consolo,
Na dor aumento, intérprete nas lágrimas»

Gonçalves Dias

Gonçalves Dias

Estudou Direito em Coimbra e aí conheceu alguns escritores com quem estabeleceu relações importantes para a sua formação intelectual como poeta. Foi, com Gonçalves Magalhães, introdutor do Romantismo no Brasil. Na sua obra aborda temas como o amor, a saudade e a melancolia. Compôs ainda poesia sobre a natureza e religião.

Escreveu, em 1843, a “Canção do Exílio”, uma das mais conhecidas poesias em língua portuguesa.

Faleceu, única vítima do naufrágio do navio “Ville de Boulogne”, que tinha partido do Havre em direcção ao Brasil e que naufragou próximo do Maranhão. Salvaram-se todos a bordo, menos o poeta, que, já moribundo, ficou esquecido no seu leito. Quando passam 147 anos da sua morte, relembramos Gonçalves Dias.

Bibliografia de Gonçalves Dias

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