Não há homem que consiga deixar uma marca nela.
Todo o passado se dilui num sonho
como uma rua na manhã e só fica ela.
Se não fosse a testa franzida por um momento
pareceria atónita.
As maçãs do rosto têm sempre
um sorriso.Também não se acumulam os dias
no seu rosto, nem alteram o sorriso leve
que irradia sobre todas as coisas.
Com uma firmeza dura
faz cada coisa como se fosse a primeira;
no entanto vive-a até ao último momento.
O seu corpo
firme abre-se, o olhar recolhido,
a uma voz doce e algo rouca: à voz
dum homem cansado.
E nenhum cansaço a toca.Quando se lhe olha para a boca, semicerra os olhos
à espera: ninguém se arriscaria.
Muitos homens conhecem o seu ambíguo sorriso
ou a súbita ruga. Se homem existiu
que a soube queixosa, humilhada de amor,
paga dia após dia, ignorando dela
por quem vive hoje.Caminhando pela rua
sorri sozinha o sorriso mais ambíguo.
Foi um dos mais proeminentes vultos da literatura e crítica literária italiana do pós-guerra e também um dos responsáveis pela introdução em Itália dos grandes escritores americanos. Traduziu Moby Dick, Herman de Melville, entre outros, a dar aulas e a escrever para a revista La Cultura. Aos 42 anos incompletos, em 1950, suicidou-se num quarto de hotel, em Turim, deixando apenas a frase “A todos perdoo e a todos peço perdão” inscrita na primeira página de seu romance Diálogos com Leucó. Falamos de Cesare Pavese, 60 anos após a sua morte.







0 Respostas to “Cesare Pavese”